Maternidade, gênero e solidão
- roberto bezerra

- há 3 dias
- 2 min de leitura
Quem sustenta quem sustenta?

Quem cuida de quem cuida?
A teoria do apego fala sobre a importância de uma figura cuidadora sensível e disponível. Mas existe um ponto crucial que muitas vezes é distorcido culturalmente: Apego não significa que a mãe precise fazer tudo sozinha.
A ideia de que “quem pariu que embale” é uma construção cultural — não um princípio psicológico.
A mãe também precisa de apego
Quando falamos em responsividade materna, estamos falando de suporte emocional.
Não estamos falando de superpoder.
Nem de prevenção absoluta de traumas.
Nenhuma mãe consegue oferecer presença consistente se estiver:
Exausta.
Sozinha.
Sobrecarregada.
Responsabilizada por tudo que dá errado.
A pergunta que muitas mulheres fazem hoje — “Eu quero mesmo ser mãe?” — é uma pergunta do nosso tempo.
Aos trinta e poucos anos, muitas estão:
construindo carreira,
enfrentando instabilidade econômica
lidando com exigências sociais contraditórias.
Quando uma mulher diz em terapia que não gostaria de ter alguém dependente dela o tempo todo, isso não significa ausência de amor.
Pode significar ausência de amparo.
| Às vezes o que ela está perguntando é:
| quem sustenta quem sustenta?
Compartilhar não é terceirizar
Existe uma confusão importante na forma como nossa cultura pensa o cuidado infantil.
Rede de apoio não é abandono.
Compartilhar cuidado é diferente de terceirizar cuidado.
Terceirizar é alienar-se da vida da criança.
Compartilhar é construir comunidade.
Bebês de alta demanda, por exemplo, convocam uma rede inteira.
O temperamento da criança também é variável na equação.
| Criar um filho nunca foi tarefa de uma pessoa só.
E os homens?
Nossa cultura ainda associa papéis de forma bastante rígida:
Conquistar → masculino
Manter → feminino
E vínculo é manutenção.
Ou seja, algo relacionado às mulheres.
A dificuldade que muitos homens demonstram em assumir responsabilidades afetivas pode estar ligada a padrões evitativos de apego — não como falha individual, mas como construção cultural.
Muitos homens também foram ensinados a não precisar.
E quem aprende que não pode precisar
aprende também a não sustentar.
| Isso produz solidão dos dois lados.
A solidão como sintoma social
Muitas vezes o sofrimento que aparece no consultório não nasce apenas dentro da pessoa.
Ele nasce na relação entre o indivíduo e o mundo em que ele vive.
A Psicologia precisa dialogar com as tensões sociais do seu tempo.
Não é possível falar de maternidade, gênero e solidão ignorando fatores como:
Exigências produtivistas
Sobrecarga feminina
Padrões da afetividade masculina
Fragilidade das redes comunitárias
Individualismo como valor supremo
Estamos vivendo uma era que glorifica independência,
mas adoece de falta de vínculo.
O que a terapia pode fazer?
A terapia pode não resolver todas as injustiças sociais e culturais.
Mas pode ajudar a:
Nomear a solidão.
Reconhecer a sobrecarga.
Construir redes mais saudáveis.
Reorganizar padrões de apego.
Autorizar o paciente a precisar.
Porque ninguém vive sozinho.
Se a solidão tem sido sua companheira constante, talvez o caminho não seja o isolamento.
Talvez seja reconstruir vínculos.
E isso pode começar aqui.





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